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Sandy que não devemos tratar como adjetivo por Ma Feitosa

Cresceu no olho do furacão, se formou em letras, se tornou mãe, se tornou carreira-solo e ídolo de mãe, pai, irmão, marido e filho. Como todo ser humano, ela tem medos, anseios, desejos e uma vida linda para ser vivida longe de audiência. Eu também acho que o que é mais precioso precisa ser reservado. O melhor de nós nem todos terão acesso. Não é preciso ser famoso para saber disso. Ela é saudável e normal. Bem normal, até demais, para uma pessoa que viu e viveu tantas coisas durante tantos anos. E ainda viverá. Falando por mim, eu não teria metade da maturidade e sanidade que ela tem hoje. Trabalhar com tudo isso e não viver tudo isso. E admirável.

Ela se tornou mais uma experiência das mais reais e interessantes que nos permitimos passar na vida. Conhecer o outro sem rótulos. E isso aconteceria mesmo se ela não fosse a Sandy. Ali estive com a pessoa. A mãe do tipo “padecer no paraíso”, a artista educada, a filha apaixonada de pais apaixonados até hoje, a profissional que se conhece melhor que ninguém, a irmã que sente falta de tudo que o irmão representa como família e não como parte de uma dupla que o Google não deixará esquecer.

Sandy tem o riso de verdade, as piadas rebuscadas de um vocabulário ilimitado, mas entende as piadas menos inteligentes também. Tem a delicadeza de uma guerreira em batalha, a gentileza e generosidade de entender o espaço do outro, sem que pulem o muro do seu espaço. Tem a grandeza de uma vida invadida até onde ela quer, mas isso eu também faço e você também faz. Mais uma experiência para a conta de quem trabalha com a fama, mas não vive a fama. Até porque ela não é de uma geração onde a profissão é ser famosa. A profissão dela é ser cantora, poeta e viver. Viver se se tornou uma profissão.

Ela tem uma energia e perspicácia sobre ela mesma admirável, que levarei para a vida como aprendizado. Quantas vezes percebemos que conhecemos a nós mesmos? E mesmo assim nos permitir ter medos, defeitos, qualidades, sonhos, e usar ferramentas para continuar vivendo e convivendo como gentileza, amor, educação, respiração e o estar presente aqui e agora. Ah! No presente ela estava em todos os momentos. Mesmo sendo permitido a ela estar com a cabeça no filho, em casa, onde ela também adoraria estar. Mas não, ela estava ali.

Ela seria tudo isso mesmo não sendo a Sandy. Porque de tudo isso que eu consegui sentir, ela nunca seria um adjetivo usado por nós tão infantilmente. Ela se tornaria apenas uma pessoa como você e eu, com todas as qualidades, defeitos e limitações que todos devemos ter.

Temos do outro o que damos ao outro. É uma lei! Dela tivemos o que demos. Se eu percebi tudo isso, que nela eu tenha deixado no mínimo a admiração. Pelo ser humano que conheci como também a admiração pelo tiozinho da padaria que eu acabei de conversar, que me disse que sua esposa adora sonho de doce de leite. Ele não é diferente do que a Sandy me deixou. Até porque ele tem uma Sandy em casa, que gosta de sonho de doce de leite. Talvez ele seja o Lucas e talvez ele tenha um filho chamado Theo, que irá ficar feliz com o pai realizando o desejo da mãe, de comer apenas um sonho. Que para muitos pode ser apenas um sonho. Mas não é.

De Sandy, com ou sem Junior, eu levo mais do que quatro estações. Eu levo aquela menina na escola que tinha o caderno mais bonito, e era aluna que não tirava nota ruim. Mas se você jogasse uma bolinha de papel na cabeça dela, era iria revidar mesmo que com palavras. E se dar ao respeito exigindo respeito. Ela cresceu, mudou o cabelo, virou mãe, mas ainda assim não deixou de viver sua arte, que é quase uma pregação de mantras para que você diga SIM ao mundo. Se apaixone e se emocione pelos defeitos do outro. E ela continua a pular e rebolar. Talvez jovem para ser velha e velha para ser jovem. A arte, para mim, está nisso. Levar a vida em verdades ditas em arranjos, poesia e canção. Identificação, pois a vida é se identificar. Se você realmente parar para ouvir, sem o apego à infância que ela representou na nossa vida, você irá enxergar a filha, neta, mãe, amiga, até se lembrar de quem você era quando sentava na primeira carteira da escola. Apenas tentando ser o que o melhor para si mesmo. Ouça a vida dela em canções. Você irá se achar nela e acordar melhor no dia seguinte.

Eu levo isso da Sandy. Talvez outros levem mais. Mas, já que eu me permito mais levar do que registrar, que eu possa entender as vezes que eu me perguntei “por que eu não tenho ídolos?”. Primeiro porque meus ídolos são meus pais, segundo que eu entendi que a minha missão é ter admiração pelos seres humanos que a vida tem me proporcionado conhecer. E daí levar muito mais do que a Sandy, mesmo amando a música e o show. Eu conheci a pessoa. Dela eu levo a arte.

A arte da vida é levar do outro o máximo que você pode. Um registro fica no celular ou em um post que se perde. Mas o cheiro, o toque, a voz, o show costurado em detalhes, cada resposta para o WOWproject, cada gentileza com a foto e com os profissionais, cada cuidado com essa edição. Isso ela seria também, se não fosse a Sandy que você acha que é. Um adjetivo.

REVISTA WOW